FONOAUDIOLOGIA E FUNÇÕES EXECUTIVAS NO PACIENTE COM TEA

As funções executivas dizem respeito às habilidades cognitivas complexas e superiores específicas da espécie humana indispensáveis para a realização de tarefas do cotidiano, na aprendizagem e na interação social. O termo “funções executivas”, bem como “funções psicológicas superiores” ou “funções mentais superiores”, envolve vários componentes como memória operacional ou memória de trabalho, atenção, planejamento, controle inibitório, flexibilidade cognitiva, tomada de decisões, organização e categorização.

Desde o nascimento até o primeiro ano de vida, pode-se observar alguns aspectos básicos referentes à capacidade de regular o próprio comportamento de acordo com o ambiente, bem como de estabelecer metas e executar comportamentos com o objetivo de alcançá-las. Sendo assim, os primeiros anos de vida são fundamentais para o desenvolvimento de habilidades que servirão de base para o surgimento de novas, mais complexas.

As Funções Executivas atuam de modo semelhante ao funcionamento de uma orquestra: planejando ações, executando e monitorando-as, e direcionando o controle de habilidades cognitivas, comportamentais e emocionais. Essas habilidades são relacionadas com tarefas que começam a ser exigidas dos pré-escolares: aprender a ler, a realizar cálculos e a escrever. Em um jogo de memória, por exemplo, é necessária memória de trabalho para gravar os locais em que as cartas estão; atenção para ver a jogada do outro e não perder uma combinação; controle inibitório para esperar a sua vez quando o outro está jogando e não abrir todas as cartas de uma vez só; e categorização para saber quais cartas são iguais e diferentes.

No Transtorno do Espectro Autista (TEA), estudos sugerem que os prejuízos em Funções Executivas mais frequentemente encontrados em pessoas com autismo são nas habilidades de planejamento, organização, flexibilidade cognitiva, controle inibitório e fluência verbal e visual. Outro trabalho traz que as crianças com autismo não utilizam a “fala interior” com a mesma eficácia das crianças que apresentam desenvolvimento típico. Sendo assim, a habilidade de planejamento fica comprometida, como também, a capacidade de regular e alternar suas próprias ações. Isto é, há uma influência negativa sobre o controle inibitório e a flexibilidade cognitiva, dois dos componentes executivos importantíssimos e presentes na interação social, no processo de aprendizagem e em diversas situações do cotidiano.

A Fonoaudiologia se insere nesse meio pois o desenvolvimento da linguagem está ligado ao desenvolvimento da intencionalidade na comunicação e na atenção conjunta/compartilhada. Nesse caso, as Funções Executivas e a capacidade de compreender as intenções do interlocutor e de manter a atenção compartilhada indicam que os déficits no desenvolvimento da comunicação podem ser decorrentes de disfunções executivas.

Na intervenção fonoaudiológica, com o desenvolvimento dessas habilidades, a criança passará a entender que a intenção do outro está relacionada ao seu estado de atenção e compreenderá o seu papel e o papel do outro como agentes intencionais. Por exemplo, os sons da fala só se tornam um tipo de linguagem para as crianças quando elas compreendem que as emissões sonoras realizadas pelo adulto carregam uma intenção de prestar atenção em algo.

Desta forma, a terapia fonoaudiológica irá auxiliar no desenvolvimento da linguagem e da fala, utilizando também como estratégias atividades que objetivem o desenvolvimento das Funções Executivas. É importante destacar que em qualquer tipo de intervenção as Funções Executivas estão presentes, mas o ideal sempre é buscar por um ambiente favorecedor e acolhedor que faça com que a criança aprenda e generalize seu aprendizado em outras ações.

Letícia Uberti
Fonoaudióloga

Postagens Recentes